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JUPIC › 02/12/2020

Folhetim – 1 de Dezembro de 2020

OBLATOS DE MARIA IMACULADA
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, PAZ E INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO

NÃO HÁ RACISMO NO PAÍS. Dias atrás, um homem negro apanhou até morrer no estacionamento de um supermercado em Porto Alegre. O massacre provocou protesto em várias partes do país. O presidente e seu vice execraram os protestos. No Brasil não existe racismo, pontificou o general. Já o capitão foi além afirmando que o Brasil é um país miscigenado que conquistou a simpatia do mundo. Afirmou que há gente querendo destruir o país incentivando o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças. Nas escolas aprende-se que a escravidão dos indígenas foi meio dominante da produção agrícola e extração mineral na colônia, usado por colonizadores brancos desde o século 18, quando o marquês de Pombal o extinguiu. Os bandeirantes paulistas são tidos como criadores do país atual, quando na realidade invadiam território espanhol em busca de indígenas para escravizá-los nos campos da produção agrícola. Fernão Dias, Raposo Tavares e o crudelíssimo Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, conhecido pela crueldade na captura dos nativos, são cultuados em nomes de escolas. Ambos, capitão e general, deviam ser confinados a seus quartéis.

Proibidos pela coroa portuguesa de escravizar indígenas, os brasileiros entraram num dos capítulos mais infames da história da humanidade: o tráfico de escravos importados da África. Em compensação aqui existiu um dos movimentos políticos de maior nobreza: o abolicionismo. Negros, como José do Patrocínio, e brancos, como Joaquim Nabuco, edificaram o que de mais nobre o gênero humano produziu. Este é o autor da obra prima literária Um estadista do império e condenou de forma  implacável o modo irresponsável como a princesa Isabel aboliu a escravatura. Os negros forros saíram das senzalas humilhantes para o degredo do desemprego, da mendicância, da discriminação e da  miséria. Mas há negros de indiscutível genialidade. Machado de Assis, parceiro de Nabuco na criação da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto, Cruz e Souza, entre tantos outros. Afrodescendentes são Pelé e o engenheiro André Rebouças, criador de obras aqui e na África. Jair Bolsonaro, descendentes de colonos italianos, não tem autoridade política nem pessoal para insultar, como o fez, brasileiros sensíveis que sabem que o legado histórico da escravidão negra assombra a realidade brasileira ainda hoje.

Senhor-escravo, Casagrande-senzala são a realidade sócio-política-econômica que construiu o país.

Fizeram da escravidão masoquista o eixo principal e não o congraçamento de raças e culturas cantado em verso e prosa, como a realidade estruturante de um país que se acredita “cordial”, conceito de Sergio Buarque de Holanda dominante até hoje no meio acadêmico. Intelectuais famosos, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, Roberto Da Mata, e tantos outros, rezam pela cartilha do “homem cordial”, interpretação dominante do Brasil moderno. A elite universitária, à esquerda e à direita, foi formada pela leitura incontestada de Sergio Buarque. Ele construiu uma narrativa totalizadora do Brasil e de sua história. Ele criou a legitimação perfeita para uma dominação oligárquica e antipopular com a aparência de estar fazendo crítica social. Por isso ele é tão amado pela esquerda e pela direita. O dado fundamental da escravidão como semente da sociedade desigual, perversa e excludente do Brasil lhe escapou. Sergio Buarque de Holanda é o filósofo do liberalismo conservador brasileiro ao construir o esquema de categorias teóricas nas quais ele pode ser pensado de modo pseudocrítico. Como poderia haver  cordialidade” num sistema alicerçado em escravos? A escravidão é realidade construída por brasileiros; em Portugal não havia escravidão. Da África vieram 4 a 5 milhões de negros em condições lastimáveis. O país tem hoje a segunda maior população negra do mundo; varia de 55 a 56 milhões de pessoas.

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